Biologicamente, em todos os seres vivos, o comportamento dos organismos é o mesmo: geração, nascimento, crescimento com balanço metabólico positivo, vida adulta, declínio com balanço metabólico negativo e morte, sem que haja modificações nesta base. Ou, então, o ciclo: semente, brotação arbusto, flor, fruto e semente, novamente, na terra. Quanto à vida, todos nós a conhecemos, seja pela observação dos outros seres vivos, seja pela observação de nós próprios, à qual, todos damos valor - varíavel, no entanto, na intensidade e na qualidade da aferição.
Mas, e quanto a morte, o que será mesmo esta ocorrência? Pois, igual como nos homens, intrínsicamente, nos animais ela representa o contrário ou a ausência da vida. E, nos seres vivos em geral, evitá-la é um mecanismo instintivo e irracional, sempre emprestando-lhe elevado poder de conservação e preservação, semelhante ao instinto de perpetuação da espécie. Assim, além das atitudes biológicas de manutenção da vida (como a busca do alimento e o abrigar-se do frio e da intempérie), nos animais, como diante dos predadores, surge o medo, o qual, com suas reações consequentes, faz parte de uma defesa contra a eliminação da vida. No homem, poderiamos exagerar dizendo que qualquer medo, analíticamente, é uma grandeza do medo da morte. Algo simples, mas ao mesmo tempo complicado se formos considerar a pergunta de: como tal ameaça chegou ao conhecimento do animal que tem medo? Um pouco chegou-lhe pela carga genética, mas a maior parte, a sua porção consciente, chegou através do aprendizado materno ou paterno, ou ambos. E todos nós já observamos o espanto de um pássaro ou outro animalzinho diante de várias circunstâncias desconhecidas e ameaçadoras - inclusive diante de nós -, bem como já observamos a mesma reação de medo que o homem tem diante de outros animais maiores e até menores, como o medo de rato ou barata - cuja explicação requer outro capítulo.
No homem, por ser um racional que ascendeu do irracional, existem duas formas básicas de encarar a morte: a forma irracional, como nos animais, e a forma que lhe foi concedida pela existência da mente e do conhecimento. Neste, a evolução da morte é conscientizada dentro do intelecto das pessoas, do mesmo modo como ela evolui dentro das várias culturas. Assim, observando-se o tratamento que a morte recebe dentro das culturas - e gerações da humanidade -, desde as mais próximas às mais remotas, em todas elas existem fatores em comum, como o sentimento de pesar inicial e a crença de que, através da alma, aquele ser passou a um estado superior de conservação perene, quase sempre num lugar em direção ao firmamento. E é assim, tanto nas culturas de povos mais ilustrados, bem como naqueles mais rudes.
Mas, além deste comportamento reacional e instintivo à morte, ela possui, amplamente e também, uma feição aprendida. Assim, filhotes de animais e filhos do homem, a partir de uma certa maturação cerebral compatível, iniciam a adquirir conhecimentos vindos do ambiente familiar e social, relativos à morte e através disto vai dando-lhe feições. E, é na idade da razão, no pleno desenvolvimento das faculdades mentais, em associação com a racionalidade e a maturação do intelecto, que a morte atinge a mais bem contornada forma para o ser humano, incluindo as muitas reações que a acompanham, normalmente, incluindo medo ou respeito a ela, que ocorrem melhor organizadas nesta idade. Incluindo aqui, a sua percepção ameaçadora por sua existência, muitas vezes, estar ligada à violência e à tragédia. E isto, assim desta forma, escapa ao conhecimento da infância, assim como, esta aceitação modifica-se, de forma sui generis, na velhice. No velho, parece que a idéia da morte venceu as barreiras impostas pelo medo, não ocorrem mais racionalizações que a amenizem e ela passa a ter contornos tranqüilos de uma realidade pacífica. E dela falam com naturalidade.
O ser humano adulto, em estado mentalmente sadio, convive, em seu nível subconsciente e em estado normal, quase sem dor ou ansiedade com a possibilidade da morte, aliás, só padece mais por seu desconhecimento que por qualquer outra causa, entendendo-a e aceitando-a como uma situação definitiva e certa, numa relação passiva com o inevitável, mas evita falar dela, talvez para não precisar, ainda, enfrentá-la. Criando para ela ou em relação a ela formas explicativas e modificadas que a amenizem. Onde se cria, inclusive, a grande aceitação da idéia de vida após a morte e suas muitas formas com caracteres de resgate e recompensa. Bem como, assim é, com a explicação da existência dos espíritos ou das almas.
Entretanto, a morte, em muitas ocasiões, psicologicamente, pode acontecer também em vida, em situações em que a mente se torna doente, tal como na depressão transitória, por exemplo, nas perdas afetivas, ou na depressão mórbida ou maior, ou mesmo no luto e em outras muitas deformações, em que a morte é sentida, no corpo e na mente, como se fosse em vida.