A morte, certamente, é um dos fenômenos mais misteriosos à nossa consciência, mas, sobretudo, quanto a influência que exerce sobre a nossa inconsciência. Basta analisarmos que uma das mais potentes forças do ser vivo, a manutenção da vida, o seu resgate constante da possibilidade da morte, a exercemos continuamente e sem pensar. Alguém já disse que os vivos são cada vez mais comandados pelos mortos, o que é verdade, mas esse é um outro assunto, filosófico e quiçá verdadeiro na sua mais profunda acepção, a ser tratado em outra oportunidade, mas que tem sua desvenda cada vez próxima.
As crianças não sabem o que é a morte, os adolescentes não acreditam nela, o adultos a temem como uma coisa remota e a maioria dos velhos desdenham dela. Por um lado, a morte sempre foi um desconforto tal à consciência humana que, como defesa à concepção de finitude da vida, foi concebida a vida eterna na forma inicial de intuição, antes mesmo da concepção religiosa. O que a torna algo espontâneo na mente humana desde séculos, pois, muito antes de Deus andar semeando mundo afora os eventos de que fala a Bíblia e pre-cedendo aos profetas mais confiáveis, existe uma certeza de que após a morte, de alguma maneira, permanecemos vivos. Foi assim desde as mais remotas culturas, a julgar-se pelos achados arqueológicos em que, espalhados pelas mais longínquas latitudes e em várias fases da história remexida da antigüidade e até na pré-história, em continentes diferentes e em épocas milenares e não tanto, foram encontradas oferendas e rituais reveladores da crença de uma possível vida após a morte, independente do grau de cultura. Surpreendentemente, a ciência de hoje já contém em seus arquivos de descobertas científicas dados reveladores sobre esta possibilidade, como a suposta existência física de uma outra dimensão, paralela à nossa.
A verdade é que a filosofia e a ciência vêem amadurecendo conhecimentos que tornam a morte cada vez, no mínimo, mais distante, menos fantasmagórica e mais vulnerável, conseqüência dos atos de semideuses modernos, os cientistas. Descontada a utópica e poética busca da eterna juventude – puro narcisismo - às custas de uma qualidade de vida ofertada pela condição de sermos uma civilização avançada e do desenvolvimento da medicina, via descobertas da ciência, estamos morrendo cada vez mais tarde em idade. Embora nos matemos de outras maneiras, milhões de mortos em guerras no último século e sem previsão de paz no atual, mera quimera. Por outro lado, ciências como a tanatologia estudam a morte em todas as suas relações físicas e metafísicas, tornando ao homem mais fácil vencê-la através do conhecimento. Entre seus recursos está, também, a criogenia, o congelamento de pessoas vivas por tempo indeterminado, à espera de soluções às maiores ameaças à vida. E sujeitas a descongelamento posterior com volta ao convívio. Além da nanotecnologia, uma ciência que se vale de recursos ultramicroscópicos para, entre outras coisas, criar tratamentos a serem feitos a nível celular, como o conserto de moléculas doentes nos organismos vivos. A prevenção do seu envelhecimento acelerado e o adoecimento tecidual através a ação de substâncias oxidativas (enferrujantes dos vários tecidos) será uma de suas conseqüências.
Como vêem, estamos vencendo gradativamente a nossa maior inimiga, hoje quase agonizante. Pena que nem todos acreditem, muitos ajam contra, poucos tenham plena consciência destes avanços e que para alguns seja questionável o seu merecimento e benefício. Mas não tem volta.