Por necessidade da fisiologia da mente, usando um recurso conhecido como projeção, o homem cultua seus semelhantes admiráveis, extraidos da realidade, da fantasia ou do misticismo.
Justo, valente, destemido, criador, aventureiro, conquistador, bondoso, caridoso, defensor dos oprimidos, cavaleiro, cavalheiro, competente, bem relacionado com a natureza e com os animais, amante de muitas mulheres, forte, galante e destro com as armas, são algumas das virtudes daqueles que se tornam lenda; e depois paradigma. O gaúcho que evocamos é assim, por aqui e mundo afora; e quanto mais longe, mais evocado e mais místico. Mas, além do regional eloqüente, encontramos modelos de comportamento admirável espalhado pela história, como os cangaceiros, os cossacos e os samurais; bem como, na literatura mundial, contemporânea ou antiga. Foi assim com os Tres Mosqueteiros, com Robin Hood, nos poemas épicos, como a Odisséia ou no Gilgameshum épico assírio de quatro mil anos, os quais centravam figuras magníficas. E o próprio Cristo, fora a divindade, preencheu requisitos bem adjetivados, necessários ao sectarismo dos do seu tempo e tempo em diante. E perpetuou-se por que a mente humana sã adeqüa-se fácil ao comportamento virtuoso, ao qual adere com naturalidade e firmeza. O história está cheia de fatos semelhantes, uns universais outros regionais, obedecendo a escalões de valor, mas com a mesma significação psicanalítica.
O homem comum e mentalmente sadio é originalmente bom; nele o mal é uma circunstância. O entendimento é de que somos originários da semente do bem que gerou a vida. E que, aos vencedores da luta que nos foi destinada pela essência da existência a contenda com o mal será concedido um prêmio, desenhado como o descanso eterno, seja no Céu, no Nirvana etc, em meio a profusão de bondade. Uma premissa criada pela consciência coletiva milenar para que valha a pena ser bom.
Se analisarmos a história do homem ao longo de sua ocupação do planeta, individualmente ou em coletivos, veremos que desde sempre ele apresentou a necessidade de eleger um deus ou muitos deles. Quase sempre para explicar fenômenos desconhecidos, como o trovão, o fundo dos mares, o fogo, a caça, o sol, a colheita etc; incluindo a explicação da sua própria existência. Zeus, Javé, Oxalá, Tupã e Deus são unidades desta plêiade. No entanto, a explicação racional e inteligente das relações de causa e efeito dos fenômenos tidos como divinos proporcionou-lhes gradativa perda de força mística e prestígio.
No caso específico de Deus, sua criação e permanência na nossa cultura, ocorrida por mecanismo parecido ao que cria os ídolos, sustenta-se via sentimentos ancestrais emanados da mente dos homens. Deus é uma projeção do bem que o homem tem dentro de si; e fruto da elevação da moral humana. Mas, também, como uma resposta para muitas dúvidas que são solucionadas, algumas, temporariamente, na divindade. E, ainda, em uma mimetização da biologia, na necessidade de ter e saber a origem humana sobre a terra. E por fim, como homem inteligente, pela carência de uma regência superior, de um super ser responsável pela criação e seu equilíbrio, uma autoridade geradora de respeito, como se fosse um pai.
Pois, a gradativa explicação intelectual da origem dos mundos e de quase todas as coisas, faz com que a sua ligação com fatos anteriormente fantásticos e que outrora foram associados à origem divina e que tenham perdido o vínculo da dependência celestial. Fazendo com que o Deus idealizado no desconhecido tenha perdido as forças e possa estar desaparecendo como tal.
Em detrimento, é claro, de um Deus que sempre foi verdadeiro e imutável, energia impregnada de bondade, de justiça e retidão e que habita em todos os lugares, em especial em cada um nós; um Deus interno compartilhado que já não mora mais tão longe.