filosofia

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Receita de vida

Esboce-se
De preferência, quando sua mãe engravidar de você, que esse ato seja programado. No mundo em que vivemos hoje, não é mais possível nascer-se por acaso, como antigamente, membros de barrigadas comumente de mais de dez filhos. Alerte-a sobre a necessidade dos pré-natais, mensalmente. Não a deixe fumar nem beber, que não se exponha à ansiedade ou à depressão, que esse período lhe seja harmônico e de feliz expectativa. E que converse com você a partir do 5º, 6º mês de gravidez; que lhe conte historinhas suaves e sussurre canções de ninar e despertar. Que ela seja suavizada por natureza, ou assim se faça. De preferência sempre, mas ao menos enquanto você ainda estiver lá dentro. Você já possui ondas cerebrais, elas são sua força, emita-as; envie bons pensamentos, no caso, ondas positivas traduzidas em serenidade, para sua mãe; troque amabilidades e ela o corresponderá com carinho e tranqüilidade. Exija que ela alimente-se bem, mas que não ganhe mais que um quilo de peso por mês. E nasça com nove meses de gestação, com três quilos e meio de peso corporal e cinqüenta centímetros, se possível de parto via vaginal e nunca esqueça de chorar logo, oxigenando bem seu cérebro e o restante do corpo.
Durma bastante e a partir daí chore o menos possível; e mame no peito, no mínimo até os seus seis meses de idade. Nesse meio tempo, exija todos os cuidados maternais que lhe sejam devidos, não deixe que lhe descuidem, bem como faça valer seus direitos de um recém nascido que carece de cuidados técnicos e profissionais de acordo com o adiantamento de seu meio.
Tenha curiosidade! Toque, prove, olhe, cheire e ouça tudo que está ao seu alcance, isso aguçará seus sentidos, formará memórias que jamais serão apagadas de seu inconsciente e que servirão de baliza para o resto de sua vida. Mais tarde, mantenha a curiosidade não só pela coisas que estão ao seu alcance, mas também sobre as coisas que você pode buscar. Engatinhe, levante-se e ande! Mexa em tudo que for possível, mas aprenda onde e quando poderá faze-lo e o que deverá evitar; e comece a ter cuidados, aprendidos do pode-não-pode paterno e materno. Alimente-se bem e cresça!
Se tudo para trás foi sadio, que em seu ambiente existam figuras de pai e mãe, em formato de família bem constituída, que lhe mostrem segurança, autoridade com ternura e carinho - nem mais nem menos. Bem como, tenha irmãos, seus consangüíneos ou vicinais, também saudáveis, que lhe repartam o bolo das atenções e dádivas emocionais e afetivas.
Tenha um bom Q.I.; alfabetize-se lá pelos cinco anos; desde sempre, sociabilize-se e aprenda a repartir-se, bem como a repartir o que a vida lhe apresentar, gratuitamente. Sinta seus mestres e superiores, em quaisquer níveis, como representantes de seus pais interiores, beba-lhes do saber, da experiência e obedeça-lhes o mais que puder. Depois, necessariamente, forme e expresse sua opinião. Sem esquecer de iniciar suas pequenas conquistas – fundamental! - afetivas e materiais. E a base de sua personalidade estará formada lá pelos seus sete anos de vida.
E continue a crescer, física e afetivamente! Sempre orientado por uma agenda de regras das coisas da vida, a esse tempo, já aprendidas como certas e erradas. Transgrida algumas delas, ocasionalmente, como uma verdadeira arte em dois sentidos, de preferência as de menor risco, apenas para provar o sabor do bem e do mal, mas reconduza-se na trilha correta. Filosoficamente, é necessário que assim se faça, por uma questão de parâmetros.

Desenhe-se

Diferente da infância, onde tudo é novo e tudo é aprendido como primeira experiência, como num beabá simbólico da vida, mas já com base moral e ética do que pode e não pode ser feito, conhecimentos esses que se depositam em estruturas cerebrais onde criamos o nosso juízo crítico básico, na adolescência, por força biológica dos hormônios próprios de cada gênero, crescem os pelos, nascem as mamas, aumenta o pênis, vem a menarca e as menstruações seqüentes. Seu hipotálamo o induz a empreitadas sexuais que quase lhe fogem ao controle, pressões poderosas passam a misturar-se com o aprendizado da idade. É tudo muito poderosamente biológico, mas não esqueça que existem leis sociais que regem tais momentos, tais oportunidades e tais apelos. Por lei natural desta fase da vida, a contestação é a regra, o desafio é corrente, os experimentos são muitos, os desconfortos são usuais e o risco é maior, bem como é maior a necessidade de atenção na sua condução pessoal.
Essa é uma fase da vida em que tudo é um turbilhão; mesmo assim, é preciso que se cresça sempre para melhor e para o alto, com e sem sobressaltos, como quem se salva de uma correnteza muito forte, muitas vezes uma braçada para trás e duas para frente, vá lá que seja, mas cresça em meio a tudo isso; e sobreviva!.
Escolha sua profissão, pois a época é a mais conveniente e natural. Mas, não esqueça uma regra básica: nunca a escolha pelo quanto você vai ganhar, materialmente. Esse é um passo quase sempre errado e as chances de frustração serão grandes. Busque uma profissão que o faça feliz; feliz você trabalhará melhor, trabalhando melhor você fará tudo mais bem feito, fazendo tudo mais bem feito você terá mais clientela, com maior clientela você, finalmente e de forma sólida, será melhor sucedido, materialmente. Essa é a regra! É infalível.

Não esqueça que em meio a tantas buscas e encontros, em meio a algumas frustrações inerentes a essa idade, você se transformará em uma isca fácil aos apelos de prazeres imediatos. Principalmente, àqueles que sugerem que a felicidade é uma conquista obrigatória, sem sacrifícios e que pode ser alcançada pelo atalho. Pois, cuidado com os atalhos ao bem estar físico e mental, desde os lícitos aos menos ilícitos, chegando aos mais eficazes e proibidos. São de grande risco os que o fazem feliz de forma mais rápida, no entanto, de forma transitória; são todos viciosos e escravizantes. Exemplos não faltam e destroem corpo e mente em pouco tempo. E mesmo no resgate deste infortúnio, você nunca mais será a mesma pessoa e seu projeto de vida lá para a frente poderá ficar comprometido.
Também, subitamente, em meio a sua biologia incandescente, você se verá diante do sexo e seus envolvimentos, que são muitos. Desde os platônicos, as auto-carícias, o medo do rechaço, o rechaço, a frustração, o bem suceder, a sensação de amor para sempre, o primeiro beijo, a primeira transa, tudo com muita intensidade. Mesmo assim, não tenha medo, vá em frente com os devidos cuidados e, principalmente, apaixono-se. Nesse particular, suas primeiras vezes estarão muito longe de serem as melhores, mas, acredite, além de parecerem ser muito boas, até mesmo excepcionais, elas serão, sim, inesquecíveis. Faça pequenas loucuras e siga caminhos desconhecidos, mas dos quais, entretanto, possa retornar apenas com discretos arranhões. A um coração adolescente é imperioso sucumbir a uma paixão, mesmo de longe.
Leia muito, romances, poesias, textos técnicos, prosas e versos. Primeiro dos autores do seu tempo, depois, ao natural, sua leitura se tornará mais sofisticada. Passe então a ler os clássicos, aqueles que alicerçaram no passado o seu tempo de hoje. Leia a história do homem sobre a terra, sobre a evolução da vida, das espécies, das tribos. Leia sobre quanto tempo e o quê se passou durante os milênios das andanças do homem sobre a terra para que você chegasse até ali, onde se encontra agora.
Medite e pergunte-se! Tudo o que você quer saber está escrito em algum lugar ou à disposição da sua busca. Duvide, ocasionalmente! De todas as suas dúvidas nascerão luzes; forme conceitos baseados no volume de seus conhecimentos. Tenha idéias e defenda-as. Ache que não é bem assim e sim assado, o tempo lhe dará ou lhe tirará a razão. A cada novo conhecimento adquirido, uma nova porta irá se abrir; e por trás dela uma nova dúvida irá fustiga-lo, indefinidamente. Este é um princípio básico do saber, a dúvida e o ato de decifra-la. Perceba a sutileza de que a sabedoria sempre e de alguma forma lhe trará felicidade. Acredite na ciência e na filosofia como princípios básicos que trouxeram o homem da barbárie e do obscurantismo e que o levarão a Deus. E não pense mais em Deus como um senhor do bem e do mal, escondido e indecifrável entre as nuvens do desconhecimento. Pense-O como uma forma de energia bondosa que habita e baliza o nosso cosmo, incluindo nossos corpos e mentes, uma possível soma temporal da bondade universal, também em crescimento. E que, como energia que é, poderá ser um dia formulado de maneira mais compreensiva e mais igual a nós, em termos.
Faça amigos, muitos deles, os mais variados. Tenha primeiro um amplo círculo de camaradagem e escolha os que lhe são mais afins. Desses, sairão os mais leais, os mais fiéis, os seus “irmãos de sangue” e de fé. Com eles você criará uma rede de afeto singular, que tempo algum durante toda uma vida poderá desfazer, por mais distantes que possam vir a estar e permanecer um dia. Marque bem esse tempo, com fotos, cartas, lembretes, objetos que contenham uma história breve dessa juventude cheia, esplendorosa e fugaz.
Se possível, lidere uma revolução que defenda suas idéias, as mais esdrúxulas que sejam. Se não for bem assim, seja um líder de qualquer coisa, até de promoção de jogo de bolita, de qualquer esporte ou de uma coisa que lhe pareça que valha a pena. Ou então, siga um líder, admire-o, defenda-o, apaixone-se por uma causa que lhe pareça justa, de preferência, socialmente justa. Forme em você um bom caráter! E comece a ter simpatia pela bondade, por ser solidário, voluntário e tolerante, pois colherá bons frutos.
Quando, de repente, você será um adulto jovem! Ai então, você será capaz de enraizar sua vida no que recomenda esse poema ímpar de Rudyard Kipling, em tradução fiel e famosa do poeta Guilherme de Almeida:
Se
Se és capaz de manter a tua calma quando
todo mundo ao redor já a perdeu e te culpa;
de crer em ti, quando estão todos duvidando
e para esse, no entanto, achares uma desculpa;

Se és capaz de esperar sem te desesperares,
ou, enganado, não mentir ao mentiroso;
ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares
e não pareceres bom demais, nem pretensioso;

Se és capaz de pensar, sem que a isso só te atires;
de sonhar, sem fazer dos sonhos teus senhores

Se, encontrando a desgraça e o triunfo, conseguires
tratar da mesma forma esses dois impostores;

Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas
em armadilhas as verdades que disseste
e as coisas, o r que deste a vida, estraçalhadas;
e refaze-las com o bem pouco que te reste;

Se és capaz de arriscar em uma única parada
tudo o quanto ganhaste em toda a tua vida...
E perder! E ao perder, sem nunca dizer nada,
resignado, retornar ao ponto de partida;

De forçar coração, nervos, músculos, tudo,
a dar seja o que for que neles ainda existe;
e a persistir, assim, quando, exaustos, contudo,
resta uma vontade em ti que ainda ordena: Persiste!

Se és capaz de entre a plebe não te corromperes
e, entre reis, na perderes a naturalidade,
e de amigos, quer bons quer maus, te defenderes;
Se a todos podes ser de alguma utilidade;

E se és capaz de dar, segundo por segundo,
ao minuto fatal, todo o valor e brilho:
Tua é a terra, com tudo o que existe no mundo.
E, o que ainda é muito mais, tu és um homem, meu filho!


E a vida, então, se transformará em um longo caminho, com altos e baixos, por dentro e por fora de sua alma, mas tenha sempre a certeza que se você trabalhou bem seus atos, ele lhe renderão bons frutos, cedo ou tarde. Siga seu caminho! Aliás, como ensinou um dia o poeta Luis Guilherme do Prado Veppo:

Quando te decidires, parte!
Não esperes que a vida cubra de flores o caminho.
Nem sequer esperes o caminho,
faze-o tu mesmo e parte!
Parte sem pensar que outros passos pararam,
que outros olhos ficaram te olhando seguir.




Construa-se

Esperemos que seu pedestal, ou o seu alicerce, até aqui, esteja a prumo e nivelado. Tome por norma, então, o seu trajeto de vida, a sua construção embasada em virtudes simples.
Entenda os sentidos básicos da vida: primeiro, o sentido biológico, que trata da sua permanência aqui na terra. Portanto, para tal, cuide do seu corpo como um todo, tanto física, quanto mentalmente . Ele é o depositário de todas as suas energias, que lhe põe em contato com tudo que o cerca; é o executor de todas as suas vontades, boas ou más. De forma integrada e em nível de perfeição, cada órgão do seu corpo tem uma estrutura correspondente a rege-lo em seu cérebro. Se um deles adoece, ou foi sua mente que assim o quis ou foi seu desleixo que permitiu.
Antecipe-se aos males mais conhecidos:
Cuide da boa forma física através da prática saudável de exercícios regulares. Atente para o que come, evitando exceder-se com os três pós brancos: açúcar, sal e farinha. E tenha simpatia pelos alimentos naturais, bem limpos e cozidos. Cuidado com as gostosas gorduras, existem aqueles que podem e aqueles aos quais é melhor evitar; esteja atento, pois. Bem como, esteja atento às gorduras circulantes no seu sangue, ao diabete, à hipertensão arterial. Esteja atento a qualquer mau funcionamento do seu corpo, desde uma simples gripe até uma pinta escura que não existia há pouco tempo em sua pele. Evite os excessos e esteja alerta a todo e qualquer sinal vermelho no seu painel físico ou mental. E quando tal ocorrer, procure logo um profissional, antecipe-se aos fatos, pois muitas vezes o amanhã já pode ser tarde ou a ocorrência de solução simples pode passar a ser mais dificultosa.
Além da sadia permanência do seu corpo aqui na terra e ainda como um princípio biológico, perpetue-se! Procrie e seu bom sangue será transmitido às gerações futuras, ato fundamental à permanência da humanidade sobre a terra. Isso faz parte de um aperfeiçoamento, desde o tempo do humanóide Astralopitécus, nosso mais atual intermediário desde o mundo irracional. Mas para tal, constitua uma família civil, social ou moralmente sadia, unida, saudável, harmônica e onde possa prosperar a felicidade, para que seus filhos cresçam com segurança e que tenham noções de autoridade, o que é muito importante para a sanidade social e mental de uma criança.
O segundo sentido básico da vida, é filosófico: baseia-se no princípio da luta do bem e do mal, devendo sempre a nossa vida ser pautada pelo primeiro. Não é preciso ser bom observador para notar, diariamente, a constante competição entre essas duas extremidades naturais e intrínsecas da vida. Talvez, seja essa a luta humana mais ferrenha, mais desafiadora, mais nobre e mais enriquecedora do ser humano como um todo.Talvez, a mais primária referência a que o homem se viu frente, como um desafio, seja vencer o mal! E que, é provável, lhe foi destinada com um sentido de marca indelével e registrada em seu cerne, algo do qual não se veria livre. E em cuja disputa entre seus extremos, coloca à prova a sua temperança, o seu caráter e a sua sanidade. Algo tão importante que, segundo vários ensinamentos básicos e atávicos, de várias fontes e correntes filosóficas, por ai acharíamos o caminho da eternidade da alma.
O terceiro sentido básico da vida, é ser feliz. É um sentido psicológico a que nossa mente, quando sadia, tem a obrigação de buscar dentro dos princípios básicos da ética. E esta, é preciso saber onde ela realmente mora, o tamanho que tem suas vibrações, as expectativas que devemos colocar sobre sua busca, um verdadeiro compêndio de filosofia e psicologia. Para não cair em risco ou erro, o melhor é vestir-se das virtudes básicas que nos levam a ela.
Mas, tenha sempre em mente que a felicidade é uma fração muito efêmera de sua vida, uma quimera, um fragmento, como um filho que chega de longe ou a decifração de uma fórmula química. Em geral, ela habita pequenas coisas, esconde-se atrás das vírgulas da vida e mais tem a ver com o detalhe do que com o montante. No resto, entre as vírgulas, deve existir a serenidade e a harmonia, como seu substrato.


E viva bem!

Ter, como ponto de partida para viver bem, a bondade. O quanto se possa, ter mais intenção e ação de dar mais do que receber e assim basear e praticar o convívio com nossos pares. É básico nas relações humanas do dia-a-dia que se aperte a mão dos que lhe são próximos; olhe-os nos olhos, chame-os pelo nome, abrace-os. Beije pai, mãe, irmãos e amigos; celebre seus circunstantes. É infalível que é dando que se recebe, um princípio básico de muitas religiões, seitas e pregações, em milênios de comprovação. Em qualquer atividade da vida, se a bondade estiver em pauta, o retorno será sempre um só, questão de tempo, nessa ou na outra dimensão: o bem. Use suas ações diárias nesse proceder, mas use também sua profissão, qualquer que seja. Geralmente, é a sua profissão o que você melhor sabe fazer; eis ai um veio farto através do qual você pode se doar em atos bondosos. A bondade gera uma cascata de sentimentos e ações positivas que, na forma de ação/reação, lhe respingam uma chuva de afeto.
Através do seu auto-conhecimento, entenda suas angústias e fracassos. Não os de acolhida, pois não somos obrigados a isso. E é doentio permanecer neles; rebele-se! Assim como a alegria da felicidade, o desconforto do insucesso ou da dor, é transitório. Tudo o que é da vida é impermanente e nada é por acaso! Assim, no caso desses infortúnios, eles são o produto de você mesmo, de sua sintonia com pensamentos negativos, de seu desarranjo pessoal, de sua sincronia com as entidades do mal que estão a sua espreita; ou, então, são produto da sua incompetência. Sacuda-se, vigie e ore. Ore muito. O poder benéfico da oração está inclusive comprovado cientificamente; e a oração nada mais é do que o seu pensamento poderoso e transformador, desde que com fé. Tenha humildade, ore e aguarde!
No entanto, em relação à oração, tenha em mente que muitas vezes são necessárias horas, dias e meses, e até anos, de preces para que um pedido seja alcançado. E que, algumas vezes, determinado pleito nunca vai ser atendido e a nossa percepção não entende o porquê. Talvez por que a nossa pretensão “ não esteja escrita nas estrelas”. Quando, de surpresa, um belo dia, algo de bom e inesperado nos “cai no colo”, algo muito melhor e maior que o que pedíamos em nossas orações.... É o que nos era o certo e o predestinado.
Mas, é preciso ter muitos cuidados com a sanidade da mente que comanda seu corpo. Entre as doenças mais comuns, é necessário saber que a depressão, como eventualidade ou como doença estabelecida, uma forma mórbida de afetação mental muito comum e nem sempre reconhecida como tal, é capaz de levar a grandes estragos, inclusive físicos. Por se tratar de uma doença bioquímica do nosso cérebro, o qual fica alterado quando acometido, inclusive com a baixa das defesas individuais e propiciando o aparecimento das mais variadas formas de doenças físicas, das mais simples às mais arrebatadoras, assim como várias formas de câncer.
Além do sentimento de bondade que a mente deve espalhar no seu entorno, é preciso cultivar, também, a tolerância, a compreensão, a paciência, o amor, a caridade, a solidariedade, a serenidade, a harmonia, a paz, a convergência com seus próximos e a empatia, que é sentir o que os demais estão sentindo como forma de melhor agir em seu favor. É preciso competência em muitos níveis da vida, intelectual, profissional, moral e espiritual para viver.
É preciso, além do mais, conhecer-se a si próprio, saber seus limites e seu alcance, saber diferenciar suas emoções e dominá-las; eliminar os maus pensamentos que por ventura assolem-no de surpresa ou cronicamente, como raiva, inveja, ódio, ciúme, arrogância, rancor, tristeza, desconfiança, mal-querência e tantos outros sentimentos negativos que envenenam as mentes e muitas vezes as mantém cativas e destorcidas, sintonizadas com o mal.
Faz bem entender, sobretudo, que cada novo dia é uma oportunidade para que se faça um recomeço; que o passado é “imexível” e que o futuro deve ser de nossa lavra, obrigatoriamente, e que deve ser bem feito!
E que, como fundamento de tudo, desde a nossa concepção, lá no inicio, é preciso agir de modo a que o dia de hoje seja melhor que o dia de ontem e o dia de amanhã seja ser melhor que o dia de hoje. Assim, com esse crescimento, com certeza, nos identificaremos melhor com o Deus que está dentro de nós.

sábado, 16 de agosto de 2008

Vida e morte, todos nós

Biologicamente, em todos os seres vivos, o comportamento dos organismos é o mesmo: geração, nascimento, crescimento com balanço metabólico positivo, vida adulta, declínio com balanço metabólico negativo e morte, sem que haja modificações nesta base. Ou, então, o ciclo: semente, brotação arbusto, flor, fruto e semente, novamente, na terra. Quanto à vida, todos nós a conhecemos, seja pela observação dos outros seres vivos, seja pela observação de nós próprios, à qual, todos damos valor - varíavel, no entanto, na intensidade e na qualidade da aferição.
Mas, e quanto a morte, o que será mesmo esta ocorrência? Pois, igual como nos homens, intrínsicamente, nos animais ela representa o contrário ou a ausência da vida. E, nos seres vivos em geral, evitá-la é um mecanismo instintivo e irracional, sempre emprestando-lhe elevado poder de conservação e preservação, semelhante ao instinto de perpetuação da espécie. Assim, além das atitudes biológicas de manutenção da vida (como a busca do alimento e o abrigar-se do frio e da intempérie), nos animais, como diante dos predadores, surge o medo, o qual, com suas reações consequentes, faz parte de uma defesa contra a eliminação da vida. No homem, poderiamos exagerar dizendo que qualquer medo, analíticamente, é uma grandeza do medo da morte. Algo simples, mas ao mesmo tempo complicado se formos considerar a pergunta de: como tal ameaça chegou ao conhecimento do animal que tem medo? Um pouco chegou-lhe pela carga genética, mas a maior parte, a sua porção consciente, chegou através do aprendizado materno ou paterno, ou ambos. E todos nós já observamos o espanto de um pássaro ou outro animalzinho diante de várias circunstâncias desconhecidas e ameaçadoras - inclusive diante de nós -, bem como já observamos a mesma reação de medo que o homem tem diante de outros animais maiores e até menores, como o medo de rato ou barata - cuja explicação requer outro capítulo.
No homem, por ser um racional que ascendeu do irracional, existem duas formas básicas de encarar a morte: a forma irracional, como nos animais, e a forma que lhe foi concedida pela existência da mente e do conhecimento. Neste, a evolução da morte é conscientizada dentro do intelecto das pessoas, do mesmo modo como ela evolui dentro das várias culturas. Assim, observando-se o tratamento que a morte recebe dentro das culturas - e gerações da humanidade -, desde as mais próximas às mais remotas, em todas elas existem fatores em comum, como o sentimento de pesar inicial e a crença de que, através da alma, aquele ser passou a um estado superior de conservação perene, quase sempre num lugar em direção ao firmamento. E é assim, tanto nas culturas de povos mais ilustrados, bem como naqueles mais rudes.
Mas, além deste comportamento reacional e instintivo à morte, ela possui, amplamente e também, uma feição aprendida. Assim, filhotes de animais e filhos do homem, a partir de uma certa maturação cerebral compatível, iniciam a adquirir conhecimentos vindos do ambiente familiar e social, relativos à morte e através disto vai dando-lhe feições. E, é na idade da razão, no pleno desenvolvimento das faculdades mentais, em associação com a racionalidade e a maturação do intelecto, que a morte atinge a mais bem contornada forma para o ser humano, incluindo as muitas reações que a acompanham, normalmente, incluindo medo ou respeito a ela, que ocorrem melhor organizadas nesta idade. Incluindo aqui, a sua percepção ameaçadora por sua existência, muitas vezes, estar ligada à violência e à tragédia. E isto, assim desta forma, escapa ao conhecimento da infância, assim como, esta aceitação modifica-se, de forma sui generis, na velhice. No velho, parece que a idéia da morte venceu as barreiras impostas pelo medo, não ocorrem mais racionalizações que a amenizem e ela passa a ter contornos tranqüilos de uma realidade pacífica. E dela falam com naturalidade.
O ser humano adulto, em estado mentalmente sadio, convive, em seu nível subconsciente e em estado normal, quase sem dor ou ansiedade com a possibilidade da morte, aliás, só padece mais por seu desconhecimento que por qualquer outra causa, entendendo-a e aceitando-a como uma situação definitiva e certa, numa relação passiva com o inevitável, mas evita falar dela, talvez para não precisar, ainda, enfrentá-la. Criando para ela ou em relação a ela formas explicativas e modificadas que a amenizem. Onde se cria, inclusive, a grande aceitação da idéia de vida após a morte e suas muitas formas com caracteres de resgate e recompensa. Bem como, assim é, com a explicação da existência dos espíritos ou das almas.
Entretanto, a morte, em muitas ocasiões, psicologicamente, pode acontecer também em vida, em situações em que a mente se torna doente, tal como na depressão transitória, por exemplo, nas perdas afetivas, ou na depressão mórbida ou maior, ou mesmo no luto e em outras muitas deformações, em que a morte é sentida, no corpo e na mente, como se fosse em vida.

segunda-feira, 30 de junho de 2008

A agonia da morte

A morte, certamente, é um dos fenômenos mais misteriosos à nossa consciência, mas, sobretudo, quanto a influência que exerce sobre a nossa inconsciência. Basta analisarmos que uma das mais potentes forças do ser vivo, a manutenção da vida, o seu resgate constante da possibilidade da morte, a exercemos continuamente e sem pensar. Alguém já disse que os vivos são cada vez mais comandados pelos mortos, o que é verdade, mas esse é um outro assunto, filosófico e quiçá verdadeiro na sua mais profunda acepção, a ser tratado em outra oportunidade, mas que tem sua desvenda cada vez próxima.
As crianças não sabem o que é a morte, os adolescentes não acreditam nela, o adultos a temem como uma coisa remota e a maioria dos velhos desdenham dela. Por um lado, a morte sempre foi um desconforto tal à consciência humana que, como defesa à concepção de finitude da vida, foi concebida a vida eterna na forma inicial de intuição, antes mesmo da concepção religiosa. O que a torna algo espontâneo na mente humana desde séculos, pois, muito antes de Deus andar semeando mundo afora os eventos de que fala a Bíblia e pre-cedendo aos profetas mais confiáveis, existe uma certeza de que após a morte, de alguma maneira, permanecemos vivos. Foi assim desde as mais remotas culturas, a julgar-se pelos achados arqueológicos em que, espalhados pelas mais longínquas latitudes e em várias fases da história remexida da antigüidade e até na pré-história, em continentes diferentes e em épocas milenares e não tanto, foram encontradas oferendas e rituais reveladores da crença de uma possível vida após a morte, independente do grau de cultura. Surpreendentemente, a ciência de hoje já contém em seus arquivos de descobertas científicas dados reveladores sobre esta possibilidade, como a suposta existência física de uma outra dimensão, paralela à nossa.
A verdade é que a filosofia e a ciência vêem amadurecendo conhecimentos que tornam a morte cada vez, no mínimo, mais distante, menos fantasmagórica e mais vulnerável, conseqüência dos atos de semideuses modernos, os cientistas. Descontada a utópica e poética busca da eterna juventude – puro narcisismo - às custas de uma qualidade de vida ofertada pela condição de sermos uma civilização avançada e do desenvolvimento da medicina, via descobertas da ciência, estamos morrendo cada vez mais tarde em idade. Embora nos matemos de outras maneiras, milhões de mortos em guerras no último século e sem previsão de paz no atual, mera quimera. Por outro lado, ciências como a tanatologia estudam a morte em todas as suas relações físicas e metafísicas, tornando ao homem mais fácil vencê-la através do conhecimento. Entre seus recursos está, também, a criogenia, o congelamento de pessoas vivas por tempo indeterminado, à espera de soluções às maiores ameaças à vida. E sujeitas a descongelamento posterior com volta ao convívio. Além da nanotecnologia, uma ciência que se vale de recursos ultramicroscópicos para, entre outras coisas, criar tratamentos a serem feitos a nível celular, como o conserto de moléculas doentes nos organismos vivos. A prevenção do seu envelhecimento acelerado e o adoecimento tecidual através a ação de substâncias oxidativas (enferrujantes dos vários tecidos) será uma de suas conseqüências.
Como vêem, estamos vencendo gradativamente a nossa maior inimiga, hoje quase agonizante. Pena que nem todos acreditem, muitos ajam contra, poucos tenham plena consciência destes avanços e que para alguns seja questionável o seu merecimento e benefício. Mas não tem volta.

sábado, 10 de maio de 2008

O arquétipo

A existência e a evolução de Deus dentro de cada um se faz de acordo com as fases da vida em que se dá esse contato e da figura e o caráter de quem ensina. Muito embora o primeiro contato oficial se dê por ocasião do batismo, o aprendizado consciente se inicia ao redor de quatro ou cinco anos, quando a criança começa a esboçar a sua personalidade e sua espontaneidade. E é aí que passa a ouvir dos pais, dos avós e familiares:"Olha que Deus não gosta de criança respondona!" ou que Deus não gosta disso ou daquilo. E a figura de Deus vai sendo aprendida e introjetada mais ou menos como a figura que a criança faz dos pais, que também não gostam disso ou daquilo e que Dele se socorrem para reforçar o aprendizado. Mais adiante no tempo, de acordo com a capacidade de compreensão, se aprende que Deus mora no céu, um senhor de barbas longas que aparece entre as nuvens, com seu séqüito de anjo "que são as criancinhas que não conseguiram viver". Mas nessa fase o indivíduo já consegue entender que Ele não é só proibição, mas que é sobretudo bom e premia o bem; vai se formando aos poucos a noção do bem e do mal e leis básicas, como não matarás, não roubarás, amarás e não mentirás, saídas do Evangelho, formam o fundamento da moral e da ética do indivíduo. Esse é o modelo que permanece durante a infância e boa parte da adolescência, já como parte definitiva do psiquismo, misturado à formação do Superego, nosso código interior de leis, na forma de Deus e pais introjetados. Tudo segundo a cultura e os costumes de onde ocorre esse processo. E a figura divina parecerá tão rígida e temível ou complacente e amável quanto os princípios de quem o ministrou.
Também no início da adolescência, devido a aproximação com as igrejas e com a catequese, atendendo ao intelecto mais atilado e suas muitas dúvidas, confirma-se que Ele mora no Céu, mas que mora também em todas as coisas vivas e inanimadas, o que O faz Onipresente; sabedor de tudo o que ocorre, inclusive no pensamento, é Oniciente; criador de tudo que existe no céu e na terra, é Onipotente. A esse tempo a Sua compreensão ainda é um tanto nebulosa, meio incompreendida, mas que precisa ser concebida, o que se consegue através da fé, um sentimento inexplicável e inerente à mente humana. Por esse tempo, a coerência e a razão permitem entendê-Lo como Senhor do bem, da justiça, da bondade e que condena o mal, exatamente como Freud nos colocou, entre o Bem e o Mal.
Mais ou menos nessa idade já está formada no intelecto do homem, a idéia de certo ou errado, de justo e injusto, de aceitável e condenável, sedimentada na consciência e na inconsciência de cada um.
A arrogância, o arrojo, o ímpeto, a sensação de liberdade, a autoconfiança, a gana da disputa, a contestação, a freqüente falta de humildade, os primeiros contatos com a ciência e a tendência à onipotência, são algumas características da segunda metade da adolescência e do adulto jovem, que levam a um natural afastamento da figura de Deus, até por competitividade, período que se prolonga muitas vezes até a idade madura.
Até aqui, dois fatores foram fundamentais no aprendizado de Deus: a personalidade de quem O ensinou, com sua crença, temperamento e caráter e a personalidade e aos mesmos fatores, de quem O aprendeu. E nestas fases, Deus evoluiu de criador, juíz celestial, pai bondoso, justo e onipotente, até o arrefecimento dessa crença. E também nessa evolução, segundo o psiquismo de cada um, a figura divina passou por cobradora, ameaçadora, algoz e fiscal para um indivíduo naturalmente culpado; ou clemente, bondosa, criadora e compreensível para um indivíduo isento de culpa.
À partir do momento em que Deus precisa ser pensado e racionalizado, se transforma numa grande sensação e esta sensação cresce à medida que o homem tem necessidade de ser orientado, ajudado, aplaudido, premiado, iluminado, corrigido ou punido, bem como, ter a necessidade de respeitá-Lo, temê-Lo e amá-Lo. É uma necessidade fisiológica da mente humana que assim o seja.

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Arquétipos, segundo a psicologia, são fundamentos básicos do funcionamento do psiquismo humano, pré-existentes à existência do ser intelectual, algo que faz parte da matriz humana e sua mente, onde é possível antever, por exemplo, que os que nascerão, já virão com arquétipos, assim como os que já vieram já os tinham, independente de outras características cromossômicas. São exemplos de arquétipo, a conservação da vida, a libido, o bem e o mal dentro de cada um(e sua eterna disputa, fundamento da existência). E inclui-se aqui a condição humana de acreditar numa regência superior e supra-existencial. Como a mente tem a idade do homem sobre a terra(existem vestígios do Homo-Sapiens 50.000 anos a.C.) é provável que desde então exista em nosso cérebro a necessidade arquetípica de um deus, que veio evoluindo através de deuses polimórficos ou do politeísmo, no transcorrer dos milênios, até sua revelação restrita e muitas vezes simbólica nas Escrituras.
Desde as culturas mais antigas, entre os assírios e babilônicos, entre os primitivos habitantes da Ásia Central e da África, entre as primeiras culturas indígenas das Américas, que não aprenderam o Deus dos Evangelhos, íncas e aztecas, entre os gregos e egípcios, todos exercitavam, através de uma necessidade que não sabiam explicar (arquetípica), a crença num deus(es) superior(es) e criador(es) do seu mundo e de seus fenômenos, a sua maioria habitando o céu, a lua, as estrelas, o sol, como figuras inexplicadas. Aqueles deuses eram fruto da concepção daqueles povos, muito diferentes de hoje, mas todos oniscientes, onipresentes e onipotentes. Note-se que, difícilmente a concepção destes deuses, nas diferentes épocas e culturas, os colocava na terra, no interior desta ou nos mares(com exceção de Neptuno e algum outro deus menor);normalmente, eram colocados quase sempre no céu inatingível. Herculano, pensador e filósofo da antiguidade, assim se referia:"O rústico,porque é ignorante, vê que o céu é azul, mas o filósofo, porque é sábio, vê que aquilo que parece céu azul, nem é azul nem é céu".Nem por isso Herculano achava que, por não existir céu, também não existisse Deus.
A maturidade nos concede espaço muito grande à introspecção, à leitura nas entrelinhas da vida e uma maior absorção de verdades universais. Depois de Deus ter evoluído de uma forma habitual, como nos outros, temível, respeitável, bondoso, criador, depois de acreditar, de agir à revelia e até de descrer, o autor gastou cinquenta anos na evolução dos pensamentos atuais, muito tempo na concepção de que Deus é uma forma de energia e muitos meses foram gastos para pensá-lo e colocá-la nesse texto digerível e compreensível, espera-se.
Jamais tais conclusões seriam produto de um pensamento infanto-juvenil; a experiência, a paciência, a humildade, a acuidade levam o homem maduro ao essencial e neste caso, até à compreensão de uma antiga palavra do vocabulário pessoal, a transcedentalidade.
Nessa dimensão O concebo, como uma energia que habita o universo do corpo humano, o universo dos seres vivos e inanimados, o universo cósmico, cujo céu já foi ultrapassado pelo homem. E, segundo os telescópios gigantes, esse universo continua em expansão permanente desde sempre e para sempre e aí também habita Deus, em forma de energia e em forma de vida.
A ligação atávica dos deuses ao fogo, ao sol, ao trovão etc, pelos antigos, talvez fosse uma forma arquetípica e de acordo com os conhecimentos de cada época, de vinculá-los à formas de energia(térmica, luminosa, sonora e outras).
Sendo uma forma de energia, esta só se manifesta nos corpos onde age, ou então permanece inerte, numa forma que, apesar de tudo que se pense ou se tenha pensado até hoje, jamais saberemos completamente, sob pena de deixarmos de ser humanidade e Deus, energia harmônica, nunca se revelará diretamente, sob pena de deixar de ser Divino.
Outras manifestações que dão idéia de que o conceito de energia não é novo, estão no fato dos povos primitivos se referirem às almas e aos espíritos como energia primitiva e esse conceito de energia era também um conceito de deus entre eles. No Antigo Testamento, a força mágica que caminhava à frente a Moisés; no Novo testamento, o Espírito Santo se manifestando em forma de línguas de fogo vindas do céu; entre os persas, o fogo do "haoma" com poder divino e para outros, o calor era a força do destino.Como se vê, sempre uma forma de energia.
Todas as idéias sobre Deus, concebidas através dos tempos pelos mais variados povos, envolvendo ou não as mais variadas religiões, são apenas concepções da consciência e da subconsciência humanas. Até mesmo as Sagradas Escrituras, concebidas sob inspiração divina, passaram pelo crivo da consciência humana, pois foi o homem e não Deus quem empunhou o calamo para escrevê-las. E talvez a verdade não seja nem uma, nem outra ou talvez todas.
Essa idéia de uma energia regendo o curso harmônico do universo não trafegou as vias comuns do pensamento lógico e científico do autor; foram crescendo como produto de uma semente que já existe em todos nós e que eclodiu, não se sabe exatamente quando, concluída como um misto de concepção, crença e razão, que não poderá, por ora, ser provada, posto que tal ainda não cabe ao tema.

terça-feira, 22 de abril de 2008

Deus já não existe

Por necessidade da fisiologia da mente, usando um recurso conhecido como projeção, o homem cultua seus semelhantes admiráveis, extraidos da realidade, da fantasia ou do misticismo.
Justo, valente, destemido, criador, aventureiro, conquistador, bondoso, caridoso, defensor dos oprimidos, cavaleiro, cavalheiro, competente, bem relacionado com a natureza e com os animais, amante de muitas mulheres, forte, galante e destro com as armas, são algumas das virtudes daqueles que se tornam lenda; e depois paradigma. O gaúcho que evocamos é assim, por aqui e mundo afora; e quanto mais longe, mais evocado e mais místico. Mas, além do regional eloqüente, encontramos modelos de comportamento admirável espalhado pela história, como os cangaceiros, os cossacos e os samurais; bem como, na literatura mundial, contemporânea ou antiga. Foi assim com os Tres Mosqueteiros, com Robin Hood, nos poemas épicos, como a Odisséia ou no Gilgameshum épico assírio de quatro mil anos, os quais centravam figuras magníficas. E o próprio Cristo, fora a divindade, preencheu requisitos bem adjetivados, necessários ao sectarismo dos do seu tempo e tempo em diante. E perpetuou-se por que a mente humana sã adeqüa-se fácil ao comportamento virtuoso, ao qual adere com naturalidade e firmeza. O história está cheia de fatos semelhantes, uns universais outros regionais, obedecendo a escalões de valor, mas com a mesma significação psicanalítica.
O homem comum e mentalmente sadio é originalmente bom; nele o mal é uma circunstância. O entendimento é de que somos originários da semente do bem que gerou a vida. E que, aos vencedores da luta que nos foi destinada pela essência da existência a contenda com o mal será concedido um prêmio, desenhado como o descanso eterno, seja no Céu, no Nirvana etc, em meio a profusão de bondade. Uma premissa criada pela consciência coletiva milenar para que valha a pena ser bom.
Se analisarmos a história do homem ao longo de sua ocupação do planeta, individualmente ou em coletivos, veremos que desde sempre ele apresentou a necessidade de eleger um deus ou muitos deles. Quase sempre para explicar fenômenos desconhecidos, como o trovão, o fundo dos mares, o fogo, a caça, o sol, a colheita etc; incluindo a explicação da sua própria existência. Zeus, Javé, Oxalá, Tupã e Deus são unidades desta plêiade. No entanto, a explicação racional e inteligente das relações de causa e efeito dos fenômenos tidos como divinos proporcionou-lhes gradativa perda de força mística e prestígio.
No caso específico de Deus, sua criação e permanência na nossa cultura, ocorrida por mecanismo parecido ao que cria os ídolos, sustenta-se via sentimentos ancestrais emanados da mente dos homens. Deus é uma projeção do bem que o homem tem dentro de si; e fruto da elevação da moral humana. Mas, também, como uma resposta para muitas dúvidas que são solucionadas, algumas, temporariamente, na divindade. E, ainda, em uma mimetização da biologia, na necessidade de ter e saber a origem humana sobre a terra. E por fim, como homem inteligente, pela carência de uma regência superior, de um super ser responsável pela criação e seu equilíbrio, uma autoridade geradora de respeito, como se fosse um pai.
Pois, a gradativa explicação intelectual da origem dos mundos e de quase todas as coisas, faz com que a sua ligação com fatos anteriormente fantásticos e que outrora foram associados à origem divina e que tenham perdido o vínculo da dependência celestial. Fazendo com que o Deus idealizado no desconhecido tenha perdido as forças e possa estar desaparecendo como tal.
Em detrimento, é claro, de um Deus que sempre foi verdadeiro e imutável, energia impregnada de bondade, de justiça e retidão e que habita em todos os lugares, em especial em cada um nós; um Deus interno compartilhado que já não mora mais tão longe.

O ateísmo e a fé

Numa primeira instancia do raciocínio sobre a questão, tem-se logo a impressão que o ateísmo existe da mesma forma como existe a descrença em outras verdades aprendidas ao longo da existência humana, ou seja, verdades que dependem muito de quem as ensinou e como foram apresentadas em sua substância. E tudo isso ocorre dessa forma, visto que, pedagógicamente, nem todos nós somos iguais ao aprender. Assim, na Bíblia Sagrada, livro maior do conhecimento e do aprendizado de Deus, este nos é apresentado de muitas formas, as quais, também na variação do psiquísmo humano e nas múltiplas emoções que o caracterizam, encontram um oscilante grau de aceitação, incluindo até mesmo a sua negação. Foram assim os motivos bíblicos que agiram na crença e na descrença dos homens, por que Deus foi mostrado como possuidor de uma conduta polimórfica. Na própria Bíblia, ao longo do tempo em que Deus esteve mais perto da sua criação, ao mostrar aos homens, a seu modo, a sua figura, ora bondosa, criadora e doadora, ora vingativa e destruidora; ora gerando medo, ora dando amor; ora semeando ensinamentos ou gerando dúvidas; ora inundando todo o mundo ou inundando só os exércitos do Egito; ora fulminando a mulher de Lot ou lá adiante fazendo sofrer a Jó; ora mal se mostrando e até sumindo, ora desaparecendo quando achou que o mundo estava pronto. Assim e porisso, a figura divina teve, o que se poderia chamar de, um marketing mal conduzido ao longo de sua concepção e transcrição para a história humana, prejudicando a sua absorção e a crença em sua figura, para muitos.
E, na realidade, Deus existiria mesmo que não fosse a Bíblia a ensiná-lo, como se comprova nas crenças indígenas num ser superior, um saber nas-ido de seus íntimos, numa clara comprovação de a divindade soe ser uma percepção pessoal e íntima, mas muito mais que isso, coletiva. Fato que se confirma nas tribos em estado de pré-catequese e em muitas aglomerações ainda selvagens e sem contato algum com a História Sagrada.
Ao longo de sua formação milenar, a mente humana civilizada restou com uma semente de emoção e sentido de filiação, que aprendeu a aprender a figura de Deus(e a convivê-la) mais ou menos como se aprende o relacionamento com os pais biológicos, nossos autores prévios, e assim para trás, indefinidamente. E, da mesma forma que temos com estes pais as mesmas aproximações e distanciamentos, inclusive com o sua negação total e inclusive matando-os dentro de nós mesmos ou físicamente, assim o é também com Deus. Tudo gerado, é bem possível, por um completo ou parcial desconhecimento dos objetos(os pais)ou do objeto(Deus), associado a sua negação até por controverso distanciamento.
No entanto, mesmo assim e apesar de ser assim, existem filhos de pais desconhecidos que acreditam nas suas existências e que os buscam com todas as suas possibilidades, com uma fé desmedida de que um dia os encontrarão. A mesma percepção acontece em relação a Deus, quando este não foi ensinado de nenhuma forma, como nos selvagens.
E a fé, talvez seja uma das explicações para o Deus inexplicável. E é o que algumas pessoas não possuem, sendo comumente os mesmos descrentes da vida e de sí próprios.
Daí advirem alguns ateus, entre eles os ateus políticos e ideológicos, assim como aqueles que não conhecem bem a sua limitação cósmica e aqueles que ainda não entenderam bem que a eternidade de Deus está exatamente vinculada à perpetuação da espécie humana num universo em expansão. Fato que ocorre através de cada um de nós, por aquele que desaparece e a cada um que nasce, pelo simples fato Dele habitar dentro cada um de nós. Numa concepção culminante de que Deus, como tudo mais e todas as outras forças, está em nós mesmos, feitos sua imagem.

Deus anda por aí!

Um texto, depois de escrito e publicado, deve ser guardado por passar a ter um significado paradigmático, do qual o autor possa lançar mão, um dia, para rever a sua linha de pensamento sobre o assunto ou mesmo para corrigi-lo, melhorá-lo ou até mesmo, renegá-lo por ultrapassado. Já que tudo se movimenta e por que até mesmo as verdades arraigadas são dinâmicas epor tal, mutáveis.
Há um bom tempo atrás, escrevi um artigo que se chamou "O arquétipo", uma longa apreciação da figura de Deus no seu significado para a humanidade e para a natureza. Desenvolvi naquela data um raciocínio comprido e metafísico, que poderia se localizar entre a hipótese e a tese, sobre a possibilidade da existência de Deus estar ligada à alguma forma de energia, já que, como ela, Ele também se manifesta nas coisas em que esteve e está presente e das quais fez e faz parte, no caso, na humanidade, na natureza e no universo. E aí, argumentava eu naquele raciocínio e hoje revisando-o, me confirmo, constato que as mais variadas formas de energia estão sempre presentes em todas as obras. Energia mental, sonora, muscular, calórica, hidrodinâmica, elétrica são apenas algumas das formas de que faz uso o nosso e outros organismos, para funcionar. A energia luminosa, sonora, eólica, hidroelétrica, térmica, magnética, atômica, cinética, são também algumas de suas formas que regem a marcha da natureza. E todas elas só existem nos corpos onde agem. A luz, por exemplo, não existe no vácuo, tudo porque nele não existem elementos onde ela possa se multiplicar, tornando-se escuridão. A energia cinética, da mesma forma, só existe se houver um objeto a ser movimentado e assim por diante. E energia, como Deus, não se vê, mas se acumula, se armazena, se guarda, se aplica, conta-se com ela, tem múltiplos usos, conhece-se seus efeitos e constata-se em suas inumeráveis e infinitas aplicações.
Nas suas aparições, descritas na Bíblia, e mais freqüentes em uma determinada fase de sua história, quase sempre associada ao povo de Israel, Deus nunca mostrou sua cara. E aquela figura que o relaciona a um senhor barbudo, visto de forma semi-oculta por entre as nuvens, nada mais é do que uma interpretação fantástica de Michelangelo. Na realidade, naqueles tempos em que se manifestava mais objetivamente, Deus aparecia sob forma de centelha, que seguia diante de seu povo, manifestava-se sob forma de trovão, de vento, de raio, ou seja, sob formas de energia, não é mesmo? Depois desse tempo, Deus sumiu do mundo em suas aparições mais concretas, mas terá deixado de existir? Ou ficou em todas as coisas sob a forma preconizada há pouco?
As catequeses, de um modo geral, são pródigas em dizer que Deus habita dentro de nós, tudo numa maneira de dizer que Ele opera através de nós(o que quer dizer, com o mesmo princípio que operam as energias nos corpos em que se manifestam). E esta é uma forma que aceita-se mais pela fé. Mas, na verdade, é nossa intenção que, além da fé, Ele seja entendido(ao menos no nosso ponto de vista) como uma forma mais inteligível e através de um princípio que poderia se chamar de "teofísico". E, talvez , um dia o será!
Reforçando esta tese, o Papa João Paulo II, falando sobre a beleza da arte, disse que certas manifestações sublimes da arte dos homens, como a pintura, a literatura, a filosofia e a música, refletem o espírito de Deus. E nestas, como em outras formas de manifestação, o homem usa alguma tipo de energia criativa para a sua construção.